quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Um "prá sempre" sem fim mesmo

Ir deitar ontem já não foi fácil. Pegar no sono, então, quase impossível. Um vazio na alma insistia em perdurar. Vazio que nem a saudade enorme que sinto do Cucca consegue completar.

Só fiz pensar e me debater com as memórias, arduamente buscando entender como, deus do céu, chegamos a esse 90o dia desde que meu filhote ganhou suas asas de anjinho. É como se eu ainda não quisesse acreditar no conceito de nunca-mais a que a ausência física dele me remete a todo minuto.

A única coisa que posso dizer com propriedade é que esses três meses se arrastaram no tempo. Acordar a cada novo dia e passa-lo sem chorar é algo que ainda não caiu na rotina. De uns dias prá cá, comecei a pensar que, no fundo, nunca cairá.

A pergunta que me faço é: quando será que vou me lembrar do Lucca sem cair em prantos, sem sentir esse buraco no peito, sem ter a sensação de que estou andando sobre o nada, que me falta o chão, o rumo, a razão.

Sim, porque não lembrar dele já vi que será impossível. Reaprender a viver sem poder tê-lo do meu ladinho, nossa, como isso é difícil. Ainda que esse tempo tenha me mostrado que há forças por perto e ao redor me ajudando a seguir caminhando. E a não deixar a peteca cair de vez. Me mostrando que é preciso olhar prá frente, querendo ou não, e me relembrando a todo instante que fugir nunca fez meu estilo. E que não faria o menor sentido agora.

Os olhares do Lucca, os risinhos, as palhaçadas, e até a vozinha de irritação de quando estava brigando com os irmãos, isso parece ecoar pela casa e por onde quer que eu vá. É engraçado, mas às vezes tenho a nítida sensação de que ele está mesmo por perto. Há uma energia boa que sinto, assim do nada.

Senão por ele, não encontro outra forma pra justificar as coisas que aconteceram na minha vida, e principalmente o modo como elas aconteceram. Tem, sim, dedo dele nisso.

As pessoas sempre me perguntam como estou me sentindo e fazendo prá tocar a vida depois da 'viagem'do Lucca. Também querem saber do Marccão e da Lella. E sempre digo: eles reagiram melhor do que todos nós, e melhor do que eu imaginava também. Não que quisessem a perda do irmão mais velho. De jeito algum! Mas, já disse antes, eles foram os que melhor lidaram com tudo isso. Muito menos pela imaturidade da vida infantil e muito mais pela pureza que têm e que lhes permite um contato muito mais direto e intenso com as coisas que só Papai do Céu sabe explicar.

O Marcco, por exemplo, já sonhou com o Lucca várias vezes. A todo momento ele vem me contar de conversas virtuais que tiveram. A Lellinha também disse que já andou vendo o irmão: "sabe, mamãe, essa noite eu acordei com o Lucca me dizendo que queria brincar de bicicleta comigo amanhã na casa da vovó. Ele tava tão bonito!".

Vai saber, né?!?!? Eu mesma já não duvido de mais nada.....

De nada mesmo! Literalmente vi minha vida despencar num buraco sem fim, com tudo conspirando pra que eu não me reerguesse nunca mais, em nenhuma das áreas (emocional, profissional, familiar, afetiva...). E, de repente, as peças começaram a se encontrar, num encaixe estreito, como que se atraídos por ímãs super fortes.

Laços familiares, há tanto desnorteados, hoje estão em seus lugares de direito. A sanidade e o equilíbrio emocional de todos nós retomaram força e imperam. Marccão e Lella se encontraram em si mesmos -- principalmente o Marcco, que hoje é muito mais seguro, mais confiante, mais meigo, e entendeu que pode chorar, sim, que isso não o faz menor ou pior do que ninguém.

E eu.... ah, meus amigos.... meu caso é um capítulo à parte. Quem me conhece há mais tempo sabe que, profissionalmente, sempre tive traços fortes, autênticos, firmes, positivos e pró-ativos. No trabalho, aprendi as vantagens de ousar, de pensar fora do quadrado, de correr riscos controlados. Mas, no resto, ah, como parecia me faltar coragem prá tanta coisa. Muitas vezes pensei que eu não conseguiria sobreviver a esse drama todo que me aconteceu -- o por fim a um casamento super dificil, a separação prá lá de traumática, o diagnóstico do Cucca, o cuidar de tudo sozinha, o transplante, a internação, as decepções no meio do caminho, as dores sentidas no fundo do coração e a certeza de que não me apaixonaria nunca mais, a perda do emprego naquele momento complicadíssimo, a ida do Lucca há 3 meses, o acordar no dia seguinte, o caminhar sem ele do meu lado, o não ouvi-lo mais dizendo que me ama mais do que o Universo....

Caramba...... isso tudo doeu muito. Parte disso, ainda dói. Outra parte, eu sei, doerá prá sempre. Mas também tem as mudanças positivas que ganhei de presente sem saber de onde vieram.

Passei meses, anos, tendo como trilha sonora da vida a música do Elvis "I'll Never Fall in Love Again". E, do nada, me pego sentindo o coração bater forte de novo, dessa vez nào por algo ruim. Mas por algo bom, algo gostoso de sentir. Que, sabe deus, onde vai dar. Sinceramente: não me importa. Importa, como disse uma grande amiga minha, que estou viva, que vi que há relações saudáveis, que sentimentos gostosos existem, que é bom gostar e ser gostada.

Passei meses, anos, acreditando nas mentiras que me pregaram quando tentavam me convencer de que eu não seria feliz nunca. E isso bem antes dessa história toda do Lucca acontecer. Hoje entendo o real sentido da felicidade. Se é que ela existe. Isso também não me importa! Importa que compreendi de verdade que há momentos felizes. E que eles devem ser vividos intensamente. E agora!

Porque a vida é, de fato, passageira. Porque não sabemos o que nos acontecerá amanhã. Porque, a um simples picar d'olhos, tudo, simplesmente tudo, pode mudar. Ou acabar. Ou recomeçar.

O Lucca me ensinou a ver a vida assim. Não que isso refresque minha dor, reanime minha alma ou me preencha o vazio que insiste em doer fundo. Mas explica de alguma forma. Justifica em parte, talvez. Dá algum sentido a tudo que houve. Completa um espaço em branco que assim ficaria prá sempre...

Sim, são três meses de um prá sempre que não têm volta. Três meses que nunca mais trarão o Lucca pro meu colo. Três de uma infinidade de meses pela frente que ainda cuidarão de deixar em todos nós uma sensação de que falta algo, falta luz, falta vida.... falta uma parte indispensável.
A mim, em particular, na contramão disso, me traz a esperança de que, um dia, quando Ele quiser, a gente vai se reencontrar. A gente vai se abraçar apertado. A gente vai poder conversar bastante. Ou não. Talvez a gente só queira se olhar nos olhos de novo pra dizer, mesmo sem palavras, do quanto o amor que sentimos é de verdade. E do tal sentido que isso tudo queira ter dado. E eu vou poder agradecer, com todas as letras, por ele ter me ensinado a amar!

Cucca, te amo muito. Te amo prá sempre. Te amo mais do que o Universo!

3 comentários:

Tatiane Minharro disse...

Além de vc seu pai tb poderia escrever um livro né??? Ele escreve muito bem...
Não tem como ler vossas palavras e não lembrar do sorriso do Lucca, aquela carinha de sapeca...
Lu, talvez vc não esteja pronta para se reencontrar com ele, mas esse encontro certamente acontecerá, mas já dizia Chico Xavier, o telefone toca de lá pra cá e não daqui pra lá, mas isso vai acontecer... como 10 e 10 são 20.

Força amiga...

Bjs

Andrea disse...

Querida Lu
......3 meses se passaram......realmente......e cada dia e um novo dia que parece nunca cicatrizarem essa grande ferida, não e mesmo ....Conte sempre conosco dear.....
Me manda seus novos contatos... Mandei mensagens para seu cel mas acho q mudou.....
Bjs

joca disse...

Luuuu, lindonaaa
você uma rocha como sempre !
quero juntar esta mulherada , ficarmos mais perto, mais amigas, mais tudo ....
força sempre !!!
Lucas continua chamando sua mãe de vó ...uma fofura ...
bjo
Georgia