domingo, 20 de setembro de 2009

Trinta dias.....

Ir deitar, de sexta prá sábado, já foi bem difícil. O sono insistia em não chegar. As lembranças pareciam falar mais alto do que qualquer outro som.

Não que os dias anteriores tenham sido mais ou menos fáceis. Mas datas cheias, como as que marcam uma semana, um mês, um ano, ah, essas acabam que tomando uma proporção maior na gente. Impactam de um jeito.... Chamam à tona as coisas mais íntimas que queremos guardar lá no fundinho da gente....

A questão é que era inevitável não pensar. E não ter a certeza de que não seria nada muito confortável viver e passar por esse dia 19 de setembro.

Seja porque ele marca exatos trinta dias desde a 'viagem' do Cucca pro lado do Papai do Céu, seja porque ele carrega um mês de muita saudade, um mês de um vazio imenso e indescritível, que arrisquei externar aqui no Blog nas poucas vezes que tive coragem de escrever depois de ter perdido o contato diário e físico com meu filhote mais velho.

A verdade é que custei a pegar no sono. Via o relógio correndo, impávido. E, por mais que eu tentasse resgatar na memória cenas do Lucca de antes do TMO, não conseguia. Os momentos que me vinham à cabeça eram sempre daqueles dias de Einstein, dos cinco meses intermináveis que vivemos lá... das frases que ele me dizia, das caras e bocas que ele fazia.

Deitei na cama, revirando de um lado pro outro, lembrando daquele jeito maroto, sapeca mesmo, mas de um carinho sem igual, que logo conquistou a turma toda lá no hospital.

Era engraçado quando médicos ou enfermeiros me diziam do quanto o Lucca era um garoto tranquilo, doce. Sim, isso ele era mesmo. Mas ninguém imaginava as travessuras que ele já tinha feito na vida. Como naquela vez que ele desligou todo o quadro de luz da casa da Didi; do dia que fechou, por marotisse pura, os irmãos menores num armário da casa da vovó Altiva; da vez que brincou de esconde-esconde embaixo de umas araras de roupa em plena C&A deixando a gente doidinho de tanto procurar por ele; enfim.....

Quando me dei conta, estava voltando no tempo aos poucos, relembrando outras coisas, outras fases, até chegar lá atrás, nele bebezinho de tudo, quando vivia me 'batizando' as roupas rs.... -- é, acreditem: ele tinha refluxo gastroesofágico, o popular 'gorfo' -- que, a propósito, é um termo muito usado mas, como meu pai bem lembrou hoje, de forma incorreta. Deveria ser 'golfo' ou 'golfada' (clique aqui para saber mais).

Peguei no sono.

Acordei no sábado, o fatídico dia 19, com o Marccão e a Lella encorujados em cima de mim. Eram 10 e tanto da manhã já. Eles pediam atenção. Ou não. Na verdade, não mesmo! Eles, instintivamente, foram me levar vida e força. Foram me colocar de pé literal e emocionalmente. Deus do céu.... como foi difícil deixar aquelas cobertas trinta dias depois de eu ter morrido um pouquinho junto com a partida do meu filhote mais velho, do meu Cucca, daquele que, hoje tenho certeza, nasceu prá me salvar e me dar vida....

Trinta dias.........
Trinta dias sem poder olhar pro meu menino...
Trinta dias sem ouvir aquela vozinha encantada...
Trinta dias sem sentir o toque dele...
Trinta dias sem poder abraçá-lo, apertá-lo....

Mas nada me dói mais do que saber que estou há trinta dias sem saber como ele está, o que ele está fazendo. Particularmente acredito que apenas o aspecto físico teve um ponto final. Particularmente acredito muito que ele continua por aí, que as coisas não terminaram de vez. Que ele está num lugar muito melhor do que aqui, muito melhor ainda do que aquele hospital.... Que está livre dos catéteres, dos remédios, das picadinhas nas veias que ele repudiava tanto....

Ai caramba..... quantas picadas ele teve de receber... quantos acessos endovenosos... Como qualquer menino de sua idade, ele sentia medo quando sabia que isso seria necessário. Porque doía mesmo. Dor que, em mim, não era física mas machucava mais, porque doía na alma. Sempre que isso acontecia, ele pedia para que eu o abraçasse por trás, pra que ele pudesse recostar no meu colo. Ele dizia que ficava mais forte assim porque eu o fazia sentir seguro. Imagina! Mal sabia ele que era a mim que ele estava dando suporte.

Ele queria que eu desse os remédios prá ele, que eu fizesse curativos, que eu o ajudasse com o banho. Dar uma forcinha com higiene no popô depois de ir ao banheiro? "Chama minha mãe, por favor, tia". Colocar o termômetro prá checar a temperatura? "Tia, pode deixar que a minha mãe sabe como fazer isso. Mamãe, você mede e depois vem dormir aqui de conchinha comigo?".

Ah... Eu renascia a cada vez que ele pedia minha presença, me fazia me sentir útil, e importante prá ele.

E aí vem aquele monte de perguntas insanas que sabemos que não cabem mas que, definitivamente, não sou nem a primeira, nem a última, muito menos a única com vontade de fazer: como estará ele agora, deus do céu? será que está tudo bem? será que ele sente medo, se sente sozinho? Será que sente nossa falta, falta de algo, minha falta? que será que ele gostaria de dizer se pudesse?

Posso confessar baixinho? Queria poder ve-lo e senti-lo de novo..... queria viver um dia de Demi Moore quando protagonizou no belíssimo Ghost....

Piegas, exagerada, desfocada, sentimentalóide ao extremo? Ah, me desculpem. Sou tudo isso junto nesse momento. Sou mais forte do que eu sonhava ser, é verdade, mas me sinto fracota às vezes, sim. E não me envergonho disso. Choro quando dá vontade, e vivo dias e dias numa boa também. Sou de carne e osso. Sou mãe....Estou reaprendendo a viver nessa fase diferente, nessa realidade diferente.

Estou vivendo, seguindo, caminhando. Com um gerúndio mais do que proposital aqui. Porque é algo que se arrasta mesmo, pra ganhar forma e sentido pouco a pouco.

Porque entendo que assim eternizo o Cucca em mim. Porque só assim darei vida a uma história que continua. De agora em diante, essa história será efetivamente escrita apenas pelo Marccão e pela Lella. Mas o Lucca permanece nela, revive nela, renasce nela. Às vezes como lembrança, às vezes como inspiração, numas como princípio, noutras como diretriz. Mas, inexoravelmente, sempre como razão.

3 comentários:

Andrea disse...

Lu,
Impossivel ler seus textos e nao sentir ....como voce diz.... na alma.....puxa.... que forca voce conquista diariamente.... que bom ter outros dois filhos maravilhosos como a Lella e o Marccao...
Cada vez mais temos a certeza que precisamos viver cada dia como se fosse o ultimo....
Vamos curtir nossos filhos, nossa familia ... nossos amigos....
Um beijo carinhoso.... e muita energia positiva e.......forca...sempre..
Andrea

GABI disse...

oi, meu nome é Linda, meu filho Gabriel de 7 anos, tem ADL, descobrimos dia 12 de agosto de 2009...em 2 meses ele perdeu td, naum fala, naum anda, naum processa o q houve, naum enxerga...moro em ctba...fica com Deus...bjusss

Anônimo disse...

Lu,

Esse trigésimo dia foi macabro! Sei lá, se por causa do nosso egoísmo, ou da nossa insapiência, mas voltaram-nos com força total todas aquelas perguntas que haviam ficado sem resposta e que estão sendo muito difíceis de compreender!
- Por que tinha de acontecer com ele? Afinal, ele não estava nas mãos dos "bam-bam-bans" do transplante de medula? Será que esse pessoal realmente fez tudo o que podia pra tentar proteger o nosso Lucca, ou, num momento qualquer, começaram a ver nele o "porquinho" de laboratório que podia até sucumbir desde que a ciência fosse testada e atendida?
Sei lá, mas ainda há uma tremenda revolta nos nossos corações! Ainda existe no nosso peito um grito de revolta que ficou engasgado! Um grito de pesar... um grito de rebeldia... um grito de perda do neto querido!!!
Um neto que há trinta dias deve estar brincando nas nuvens de algodão, fazendo-as de cama elástica enturmado com os anjinhos peraltas - seus mais novos amiguinhos!!!