domingo, 15 de março de 2009

Vivendo um dia de cada vez, mas vivendo sempre!

Peço licença às questões técnicas e a um jeitão direto (jornalístico até...) que mantenho aqui com muito gosto, ao dividir detalhes dessa luta que, estou certa, Lucca já venceu. Mas, sei lá porque (porque é madrugada de domingo talvez, ou porque o sol estava bonito lá fora, ou porque hoje o Lucca teve o dia mais amoado de todos -- não sei mesmo.....), mas quis que essa tecnicidade désse um espacinho à emoção de folhetim, do meu folhetim.

Estar aqui no Einstein, vivenciando tudo isso que se passa com o Lucca, com meus outros dois filhos que ficaram na casa dos meus pais nesses dias, e também comigo própria, só reforça em mim uma crença que sempre defendi na teoria e, mais do que nunca, hoje experimento na prática: é preciso viver um dia de cada vez, firme, forte, intensamente, e, como diz a música, vivê-lo como se não houvesse amanhã. Não porque eu não acredite que o amanhã não virá. Isso nunca!! De jeito nenhum!! Não eu!! Muito menos agora!!

Mas porque a vida é por demais valorosa, sublime mesmo, e ninguém pode se dar ao luxo de jogar fora um segundo que seja. Não é aceitável que percamos tempo com coisas tão ínfimas ao invés de sorrir, brincar, trabalhar também mas tendo tempo, prá si, pros amigos, prá família... ao invés de amar, correr, abraçar, encher de beijos, cuidar, pular, falar e estar com quem se ama.... O medo de perder isso não deve falar mais alto do que a certeza de que essas são as coisas boas da vida, as que nos fazem bem, nos estimulam, nos mantém vivos de verdade, nos fazer ser 'do bem'. E nada pode ser mais importante do que ser 'do bem', do que ser feliz.

"Epitáfio", dos Titãs, que é pra mim um clássico da nossa MPB moderna, sempre foi uma daquelas músicas que me faziam parar, pensar, tentando voltar no tempo e reviver o passado. Ledo engano meu. A máxima que vale aqui é que não se pode mudar o que já passou. Entretanto, só depende de nós aprender com o que foi vivido e escrever um futuro diferente, mais coerente, mais centrado, mais nosso.

Noutro dia, numa entrevista com um headhunter, ele me fez uma daquelas perguntas bem típicas de um processo de seleção em Recursos Humanos: "como você definiria a Luciana de hoje comparada à de cinco anos atrás". Pensei por alguns segundos antes de responder. E tudo que me veio à cabeça foi: "a de cinco anos, eu não saberia te dizer. Mas, a Luciana de hoje comparada à de 7, 8 meses atrás, é sensivelmente diferente. Muito mais dolorida, isso é indiscutível. Mas, por incrível que pareça -- e sem querer parecer pedante --, muito mais inteira, mais forte, mais madura, muito mais mulher".

Pude perceber e entender que nada disso tem a ver, na verdade, com as mágoas do passado pelas quais já sofri e chorei. Acho que nem mesmo com as pessoas que passaram pela minha vida. Me fazendo rir, ou me fazendo soluçar de dor.

Sabe, é como se houvesse duas vidas em mim: uma antes de 1/8/2008 e a outra que se iniciou naquele exato dia, quando, sentada na minha sala na moksha8 Pharmaceutical, eu naveguei pelo Google e descobri o significado de adrenoleucodistrofia... As coisas mudaram em mim. Mudaram muito. Radicalmente. Guiadas pela força que tive de encontrar aqui dentro, prá me manter em pé, não esmurecer, não entregar o jogo de jeito algum.

Estar aqui nesse hospital, assistir a tudo sem poder arrancar o Lucca dessa cama, desse 'catécter' (como ele diz...), disso tudo, não é nada fácil prá mim.... Uma vontadezinha de chorar insiste em me bater à porta do peito..... Desde o começo, é como se eu revivesse em cada minuto desses 7 meses os meus 37 anos de vida....

Mas há meus filhos, à frente, por cima, acima, abaixo e de todos os lados de mim.....

Cada olhar, cada gesto, cada palavra do Lucca aqui nesse mesmo quarto do Einstein me devolve a vida, me faz suspirar fundo, fundo. De alegria, de orgulho dele, às vezes também de medo e de uma angústia que dói na alma. Mas, principalmente, me enche de certeza de que eu não tinha mesmo outra atitude pra tomar. Erguer a cabeça e seguir firme, e em frente (mesmo quando eu sentia como se me faltassem as próprias pernas), essa era a única escolha sensata a se fazer.

Quis e fiz e ainda faço meu melhor pra acolher o Lucca, o Marccão, a Lellinha, querendo colocá-los no colo sempre, protege-los sempre, dar-lhes estrutura sempre. Hoje, só não sei ao certo, quem emprestou força a quem..... eu a eles? Eles a mim!

Um comentário:

Dra.Abelhinha disse...

Oração da Serenidade

Deus,
dai-me a serenidade para aceitar as coisas que eu não posso mudar,
coragem para mudar as coisas que eu possa,
e sabedoria para que eu saiba a diferença:
vivendo um dia a cada vez,
aproveitando um momento de cada vez;
aceitando as dificuldades como um caminho para a paz;
indagando, como fez Jesus,
a este mundo pecador,
não como eu teria feito;

aceitando que Você tornaria tudo correto se eu me submetesse à sua vontade para que eu seja razoavelmente feliz nesta vida e extremamente feliz com você para sempre no futuro.

Amém.

Lu tenha um lindo dia !!

beijokas para o Lucca.

Dra. Abelhinha - Lilian FErraz