domingo, 3 de outubro de 2010

Primeiro papo com o Cucca, depois de tanto tempo...

Era madrugada de 19 de agosto de 2009. Exatos cinco meses após o Cucca ter recebido as células hematopoéticas da meninninha norte-americana...

Acordei assustada com enfermeiras e médicos da UTI do Eistein entrando no quarto. A pressão do meu filho estava em 3x2.... Eles entraram, queriam que eu saisse do quarto. Mas eu não quis sair. Não podia sair. Eles tentaram reanimá-lo mais uma vez. Mas, poucos minutos depois, foram saindo de perto da cama. O Lucca não estava mais ali.....

Debaixo daqueles lençóis, só tinha ficado o corpinho esguio dele, com as marcas dos últimos dias tão dificeis, das tantas picadas que ele, por um montão de vezes, repetiu que não queria mais.... Dificil, muito difícil, esquecer aquela cena do médico intensivista vindo até mim pra dizer que já não havia mais o que fazer.

Eu insisti que tentassem de novo. Mas eles insistiam que não havia mais o que fazer. O Cucca já tinha ganho suas asas de anjinho... De novo me pediram pra sair do quarto mas era mais forte do que eu. Tudo que eu queria era pegá-lo no meu colo, abraçar forte, apertado, quase que implorando que ele não me deixasse ali sozinha.

Seguidora da filosofia espírita que sou, até sabia que, se Deus deixou que ele fosse naquele momento, algum bom motivo tinha. Ele não merecia mais aquilo. Merecia algo melhor. Muito melhor! E por isso seus anjinhos do guarda teriam intercedido pra que encerrasse naquele momento aquela rotina de dor, de chateações, das picadas que tanto o incomodaram....

Tá, racionalmente eu sabia de tudo isso. Mas tinha o lado emocional, que falava mais alto. Muito mais alto. Berrava. O vazio imediatamente roubou todo o espaço que me sobrou. A dor de não mais poder dar um abraço muito apertado no meu filho mais velho, ai caramba.... como eu ia sobreviver sem ele??

Todo mundo falou e eu sabia: tinha (tem!) o Marccão e a Lella, que também precisam de mim. Tá, mas eles já existiam.... Ali eu tinha que começar uma nova jornada sem uma parte muito importante de mim. Lembro de ter falado algumas vezes que era como se eu tivesse perdido uma parte física de mim. Mas era muito pior do que a sensação de perder uma perna ou braço. Parece que perdi uma parte física do coração. Um pedaço da alma morreu junto com o Lucca naquele 19 de agosto de 2009....


(.....)
O tempo passou. Dias atrás foi 19 de agosto de novo.... Um ano sem poder tocar, olhar, sentir o cheirinho e ouvir aquela vozinha sapeca do meu Cucca. Choro e riso se misturaram em mim nesses quase 400 último dias... Nem eu mesma sei dizer como cheguei até aqui. Ok. Tenho conseguido levar a vida, melhor do que eu imaginava que conseguiria. Tenho reaprendido a caminhar sem o Lucca fisicamente ao meu lado um pouquinho a cada dia. Há dias em que tudo parece muito muito muito difícil, quase impossível. Noutros, é como se ele mexesse seus pausinhos pras coisas e pras dores amenizarem em mim.

Fico lembrando de coisas que vivemos juntos, de coisas que conversamos, de coisas que combinamos e hoje, só hoje, elas fazem algum sentido...

As partidas de Tênis que jogamos juntos naquela última vez em que estivemos no Hotel Fazenda Hípica Atibaia, um mês antes de ele ser internado para o transplante... Sinais de um futuro bom....


(.......)
O tempo passou um pouco mais.
A saudade em mim só fazia aumentar. Chorei muito, rezei tanto, pedi de montão prá saber como ele está. Sonhar com ele pelo menos.... Sei lá, ter qualquer sinalzinho que fosse, como se possível fosse interceder nessa relação.... Eu sabia que não é fácil assim.

Dias atrás, quase afoguei o Rodrigo de tanto que chorei assistindo "Chico Xavier, o filme"... Principalmente quando lá dizia sobre chorar por alguém que partiu. Mas como não chorar, deus do céu?!?!? Alguém pode me ensinar a fórmula mágica?....

Até que ganhei um presentão. Nessa noite passada, sonhei com o Cucca, e ele falava comigo. Foi a primeira vez. Ele tava super feliz, cabeludo de novo (e não tava com o cabelo moicano como o do cantor da música "Anjo do Céu", como ele dizia tanto que iria usar depois do TMO rsrs...). Tava todo bonitão, meu magrelo gostoso de sempre. Uma cara boa. Saudável. Feliz!

Sapeca como sempre!
No sonho, estávamos de volta em casa, como se a vida tivesse retomasse o curso. De repente, ele olhou prá mim sorridente, e disse todo feliz que agora ele estava bem de novo e que queria brincar. Acordei de repente, mais rápido do que gostaria. Tentei apertar os olhos pra voltar a dormir, pra continuar a sonhar.... Mas chorar foi mais forte que eu naquele momento.... Um choro de felicidade de ve-lo conversando comigo ainda que no sonho. Um choro de saudade intensa. Um choro de mãe!


(.......)
Noite de domingo, 3 de outubro. Faz pouquinho tempo que chegamos em casa. As crianças foram brincar na casa de amiguinhos, e Rodrigo e eu decidimos então ir ao cinema. "Nosso Lar" foi o filme que assistimos. Preciso dizer que chorei? Chorei! Chorei desde o comecinho. Chorei de saudade de novo. Chorei de certezas também. Chorei de angústia e da dúvida....

Só fiquei pensando em como foi sua viagem até chegar do lado do papai do céu... Quem veio acompanhá-lo naqueles minutos seguintes aos que os aparelhos que controlavam seus sinais vitais pararam de soar no hospital? Como foi desde que os médicos e enfermeiros foram deixando o quarto em que estávamos, que ficamos ali eu e com seu corpo no meu colo todo molhado com aquele monte de lágrima que eu não conseguia controlar?....

Espíritas ou não, recomendo a todos que assistam esse filme. Primeiro porque é mesmo uma baita produção do nosso cinema brasileiro, com bons atores (um deles foi um super prazer rever: Fernando Alves Pinto, que vive Lísias, estudamos juntos na época de São Luís). Depois porque, reservadas as devidas proporções e descontadas as questões filosóficas ou religiosas, a história em si nos faz pensar sobre um monte de coisas. Em especial, sobre o que estamos fazendo de nossa vida no hoje....

Saí do cinema com angústias brandas, saudades, mas também com a certeza mais clara de que, sim, sei que o Lucca está bem, em boas mãos e ótima companhia. Não que isso consiga manejar meu vazio, mas repousa a alma de alguma forma.... Saí do cinema sentindo o Cucca por perto....

No carro, a caminho da casa do amigo do Marccão pra buscá-lo, Ro e eu falávamos sobre isso tudo, sobre o filme, sobre o Lucca por perto. No rádio, começou a tocar a música "Anjo do Céu", que cantávamos no hospital. Cucca sempre pedia pra eu não chorar... ele dizia que não queria me ver chorar....

Coincidência? Não creio.

"Um anjo do céu te trouxe pra mim
é a mais bonita a jóia perfeita
que é pra eu cuidar, que pra eu amar
gota cristalina tem toda inocência.

Vem, oh meu bem, não chore não, eu vou cantar pra você
Vem, oh meu bem, não chore não, eu vou cantar pra você
Vem, oh meu bem, não chore não, eu vou cantar pra você
Vem, oh meu bem, não chore não....

Um anjo do céu que me escolheu,
serei o seu corpo, guardião da pureza,
que é pra eu cuidar, que pra eu amar,
gota cristalina tem toda inocência"





2 comentários:

Tato disse...

Lu, você pode não acreditar mas sinto sua dor como se fosse direto em mim. Eu queria poder estar do seu lado, te abraçar, tentar amenizar um pouquinho que fosse desse sofrimento que eu sei que é enorme. Mas sei que não posso.... Tudo que espero é que vc esteja sendo bem cuidada por quem tá do teu lado aqui na Terra. Porque lá do céu sei que o Cucca está tratando de nem piscar pra confortar vc.
Um beijo muito carinhoso,
Tato

Andrea disse...

Lu, impossível não sentir sua emoção, transmitida atraves do texto.... Nossa.... Que difícil!!!
Querida, forca.....todos os dias.......bjs
Andrea Bulcao