Dezembro de 2009
"Querido Papai Noel,
Mesmo não sendo criança, mas, considerando o meu bom comportamento e usando das prerrogativas que me são oferecidas pelo Estatuto do Idoso, julgo-me no pleno direito de também poder encaminhar-lhe a minha cartinha, relacionando os presentes que gostaria de ganhar neste Natal de 2009.
Todavia, embora possa ser considerado um mal agradecido, quero começar esta cartinha registrando uma queixa sobre a sua pessoa - se é que nessas lonjuras geladas da Lapônia, o cliente disponha de um ombudsman ou de um SAC eficiente que o ajude nas suas dificuldades.
É que, em dezembro passado, na noite em que nos visitou para entregar os nossos presentes, você se esqueceu de mencionar que o pacote envolvido no papel menos brilhante e de laço grosseiramente arranjado, só nos seria entregue em agosto, precisamente no dia 19, quando, vencido o primeiro semestre do ano, já começávamos iludidamente a achar que encerraríamos 2009 com "chave de ouro".
Ora, como amigo que sempre disse ser, era natural que, mesmo não podendo ser totalmente explícito, você encontrasse uma maneira delicada de nos avisar que aquela alegria toda da noite festiva de Natal seria maculada por um estúpido acontecimento. Pena que o Destino – desacreditado talvez dos nossos merecimentos, tivesse escolhido, como melhor presente daquele Natal, não os carrinhos multicores ou as bonecas graciosas, mas a oportunidade que se gravou indelevelmente na nossa lembrança de ter sido aquela a "última noite de Natal" em que todos nós pudemos nos abraçar ao redor do pinheiro engalanado e piscante.
Foi, naquele "último Natal", que ainda pudemos sentir o afago daquelas mãos pequeninas e ver o largo sorriso estampado naquele rostinho, a cada pacote rasgado avidamente para descobrir, lá dentro, o tesouro do presente novo – o brinquedo esperado com tanta ansiedade naqueles últimos dias. E você, Papai Noel, nem o avisou que aquilo tudo era efêmero e que aquelas coisas todas se transformariam em lembranças, hoje guardadas nos cantos, sem dono! Você nem o deixou aproveitar direito aqueles brinquedos – grande amigo, não?
Por isso, resolvi escrever esta cartinha com os meus pedidos e com a minha reclamação.
Papai Noel, quero que nesta noite de Natal, você reivindique junto a Jesus que permita que o Lucca se aproxime da nossa casa e nos veja a todos, mesmo chorosos, mas juntos como sempre estivemos, deixando vago, mas reservado, apenas o seu lugarzinho ao redor da nossa árvore.
E que ele saiba que, embora reste conosco agora esse imenso vazio, todos estaremos pedindo que Deus o abençoe e não o proíba de brincar saltando nuvens, rindo espalhafatosamente nesses céus azuis!"